esquecendo olhares


As vezes um suposto erro que você cometeu constrói, em você, a vontade de desaparecer, mas acho que no meu caso, muito mais do que a vontade, esse meu erro materializou a minha própria fuga. Olho através da porta do quarto do meu namorado e não vejo a sala, que era o que deveria estar ali, vejo um beco, um beco de uma cidade grande que está sendo banhada pela luz do luar. Mas é uma manhã de domingo, eu e meu namorado estamos em seu quarto, na casa dos pais dele, localizada em um sítio no interior do estado, mas eu estou em pé em frente a uma porta que aparentemente me levará para um lugar que fisicamente não está ali, enquanto isso, meu namorado dorme um sono profundo, e eu não me sinto segura de acorda-lo para mostre-lhe aquilo. Talvez aquilo seja apenas um sonho, quero acreditar que seja um sonho, porque aquele beco me é familiar, me traz lembranças, lembranças que nunca contei ao meu namorado, lembranças que na verdade eu prometi nunca contar a ele. O beco, que naquele momento está abraçado pela noite, me remete a lembrança de quando viajei para a cidade, um grande par de olhos castanhos me foram apresentados por lá. O dono dos olhos castanhos era filho de conhecidos dos meus pais. Não lembro de nem uma palavra dita pelos olhos castanhos, não lembro sequer seu nome, eu estava ludibriada apenas pelo seu charme e pelo seu olhar, eu estava atraída por ele, e o seu olhar me guiou até aquele beco da cidade, aquele olhar me guiou por momentos inesquecíveis de prazer naquele beco... bem, depois eu realmente quis conhecer melhor os Olhos Castanhos, mas meus pais disseram que era melhor manter distância deles, foram prevenidos pelos pais dos Olhos Castanhos que ele tinha alguns problemas que ainda estavam sendo tratados. Então, nunca mais vi Olhos Castanhos e guardo segredo sobre o beco desde então, nem meus pais, nem meu namorado e nem minhas amigas sabem daquilo.

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Depois
            – O serviço está pronto. – Disse um jovem de dezoito anos que limpava a faca suja de sangue com um pano. – Demorou um pouco porque ele ficou enrolando com um amigo dele.
            Era uma sala de escritório como qualquer outra, uma escrivaninha, computador, papelada e duas poltronas de couro confortáveis, uma de cada lado da mesa. O velho estrangeiro estava sentado atrás da escrivaninha, usava uma camisa florida de abotoar meio aberta dando para ver uma camiseta por baixo com a uma estampa escrita GRINGÔ.
            – Enrôlando? Deve ter acontecidô algo interressânte. – Um sotaque inglês que causava náuseas ao jovem ecoava pela sala. – Me conte comô foi. Querro ouvir alguma boa histórria hoje.
            – Na primeira esquina que nós entramos enquanto eu o seguia, ele esbarrou com quem parecia ser um velho amigo. – Começou a contar a história o jovem com a faca, agora limpa, na mão. – Fiquei logo atrás, sentado em um banco qualquer que estava coberto pelas sombras, apenas observando eles.